Francisca Fernandes, a empreendedora que virou referência na comercialização de bananas em RR

Por Pablo Sérgio

Na série de reportagens em homenagem ao mês dedicado às mulheres, a equipe do portal de notícias Sakso, sem fronteiras, esteve numa manhã de quarta-feira na Feira do Produtor, bairro São Vicente, para conversar com uma produtora rural que no decorrer de 21 anos transformou-se numa das principais referências na comercialização de bananas no atacado e no varejo do mercado roraimense.

Ela é maranhense, morando em Roraima há 36 anos, dos quais três em Rorainópolis e os demais em Boa Vista. Mãe de quatro filhos, sendo três mulheres e um homem. Larissa Fernandes, estuda curso preparatório para o vestibular de medicina; Gabriel Fernandes, acadêmico de engenharia civil na Universidade Federal de Roraima; Kaline Fernandes, médica, atualmente cursando especialização em pediatria em São Paulo e Joelma Fernandes, professora do Instituto Federal de Roraima e doutoranda em Educação.

Francisca Fernandes, chamada carinhosamente de Branca, recorda que sempre morou no interior e sempre dizia para a mãe, Raimunda Fernandes, Dona Mundica, que não gostaria de criar seus filhos no interior. Queria que eles tivessem melhores oportunidades de estudo e por isso decidiu sair de Rorainópolis para morar em Boa Vista.

Nos primeiros cinco anos morando em Boa Vista, Francisca Fernandes trabalhou como vendedora de loja de confecções e diz que aprendeu muito com a dona da loja que virou uma grande amiga.

Depois da experiência como vendedora de loja, resolveu vender roupa por conta própria. Entretanto, um dos seus sonhos era trabalhar com produção rural e como não dava para fazer isso em Boa Vista, ela conseguiu um lote de terra em Rorainópolis e começou uma plantação de bananas que, segundo ela, foi bem sucedida.

Quando começou a colheita da banana ela resolveu vir pessoalmente para Boa Vista para comercializar na Feita do Produtor e, em seguida, vizinhos e conhecidos que viviam da agricultura familiar resolveram pedir para ela vender os produtos deles também e ela aceitou o desafio.

“Eu aceitei de bom grado essa missão e deu tão certo que chegou ao ponto que eu passei a ficar direto na feira e priorizando a comercialização das bananas no varejo e no atacado”, recorda Branca.

Francisca lembra que sua primeira produção de banana foi de vinte linhas plantadas, no ano seguinte, 40 e depois 80, foi quando teve a certeza de que deveria se dedicar exclusivamente à produção e a comercialização da banana. Ela disse que não vende nenhum outro tipo de produção agrícola

Branca esclareceu que nos últimos 21 anos tem passado mais tempo na feira do que em qualquer outro lugar e disse ser registrada como produtora rural na Secretaria Estadual de Fazenda (Sefaz).  Que lhe permite vender com nota fiscal aos seus clientes, que vão desde o cidadão comum até grandes redes de supermercados e restaurantes de Boa Vista e de Manaus.

Mesmo cuidando da comercialização em grande escala, ela afirma que continua envolvida diretamente na produção das bananas, através de parcerias com alguns agricultores da região de Sumaúma, município de Mucajaí.

Francisca recorda que até bem pouco tempo ia semanalmente de moto para acompanhar a produção de banana em Sumaúma e levar os insumos necessários, entretanto, depois que foi assaltada, vai de caminhão todas as quartas-feiras.

“Mesmo depois que eu optei por permanecer na Feira continuei o trabalho de produção, fiz algumas parcerias e participo de todo o processo de produção que culmina com a comercialização e uma vez por semana vou ao interior levar o material necessário para a plantação, ver o que está faltando, definir em conjunto o local e a quantidade de linhas a serem plantadas e ajudar na colheita, além de transportar as bananas para a feira”, esclareceu.

Francisca disse que trabalha com muito prazer, gosta do que faz e do contato direto e diário com o público em geral.

Problemas surgem para serem resolvidos, é o que diz Francisca Fernandes

Francisca Fernandes lembra que há cerca de dois anos quando a produção de banana em Roraima foi quase nula – por conta da forte estiagem e das queimadas que dizimaram as plantações – ela precisou importar banana de outros estados para suprir a demanda semanal de sua clientela, pois atende supermercados e restaurantes com produtos selecionados e quando a produção local está normalizada a produção local também é exportada para Manaus.

Uma mulher alegre, sorridente, falante, muito ativa, Francisca disse que praticamente criou seus filhos e os educou com a venda de banana e muitos dos conhecidos e amigos ficam admirados com a disposição dela em trabalhar e resolver problemas.

“Quem me conhece sabe que para mim não tem tempo ruim, mas fico muito chateada quando alguns dizem que eu deveria ter nascido homem, pois sempre resolvo os problemas que vão surgindo. Mas eu tenho orgulho de ser mulher e digo que se fosse nascer de novo gostaria de nascer mulher. Vai que eu tivesse nascido um homem preguiçoso?”, indaga a produtora rural.

Francisca Fernandes, com os quatro filhos  

Família é a base de tudo, afirma Francisca Fernades

Falando sobre suas motivações diárias para ter uma vida tão dinâmica, Francisca disse que toda a força que tem vem de Deus e da mãe que sempre a apoiou e a incentivou em todos os momentos de sua vida, principalmente nos mais difíceis e ajudando na criação das duas primeiras filhas.

“Mas minha motivação maior em tudo são meus filhos. Tudo o que fiz e o que faço é pensando neles e para eles, pois sou muito família e tenho muito orgulho de cada um deles”, fala com um brilho especial no olhar.

A produtora rural que decidiu sair do interior para investir nos estudos de seus filhos disse que quando era mais nova tinha o sonho de ser jornalista, mas sempre achou que não conseguiria falar em público.

Ela recorda que só havia estudado até a quinta série e depois de seis anos sem estudo retornou à sala de aula, mas não deu para continuar e parou novamente. E depois voltou novamente a estudar e não dando certo decidiu que só retornaria aos estudos após os filhos estarem maiores.

Depois de muita insistência da filha mais velha para que ela voltasse a estudar, Francisca diz que há nove anos surgiu a oportunidade de ingressar na Fundação Bradesco e após concluir o ensino médio, aproveitou o embalo dos estudos e decidiu fazer um curso superior.

Quando este momento chegou ela disse que ficou em dúvida entre os cursos de psicologia e serviço social, mas findou optando pelo primeiro e durante a faculdade conciliou trabalho, estudo e família e diz que foi uma experiência muito gratificante.

No ano passado concluiu o curso de psicologia e já ingressou numa pós, mas decidiu dar um tempo este ano e só retornar aos estudos no ano vindouro quando pretende concluir a pós, iniciar um mestrado e, quem sabe, um doutorado.

Aos domingos Francisca Fernandes ainda tira plantão no Feirão do Garimpeiro e recorda que a filha mais velha sempre ajudou na venda. “Minha filha Joelma me ajudou muito. Trabalhava aqui com garra sempre que eu precisava, somente depois que passou no concurso para professora e por conta dos estudos acadêmicos deixou de vir”, afirma com orgulho.

“Eu tenho muito que agradecer a Deus todos os dias, pois sou uma pessoa realizada e feliz. Tenho meu trabalho, tenho meus filhos que muito me orgulham e adoro cozinhar para meus filhos. Fico feliz quando estamos juntos numa mesa, comendo, conversando discutindo sobre tudo”, disse com alegria.

Falando em nome dos filhos de Francisca, a filha mais velha, Joelma Fernandes disse que a mãe é um exemplo e uma referência para toda a família.

“Ela é nossa maior incentivadora e mesmo tendo uma atividade profissional que exige muito a sua presença no trabalho, ela sempre esteve presente em nossas vidas, dando apoio, orientando, consolando e motivando em todas os momentos, é o nosso orgulho e nossa motivação diária”, disse emocionada a professora Joelma.

Registro fotográfico com familiares e amigos e duas das filhas quando da formatura em psicologia

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